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terça-feira, 5 de outubro de 2010

Roteiro de trabalho – Fábula Eleitoral para Crianças




1 Série a que se destina:
3º Ano - EM e/ou 9º ano EF


2 Objetivos:
Desenvolver as competências leitoras e escritoras de textos literários dentro da tipologia narrativa, com presença de argumentação e figuras de linguagem.
Explorar os gêneros fábula e crônica (inter-relacionar os gêneros)
Explorar o texto e a percepção dos conectivos e suas funções
Identificar o tema do texto
Desenvolver leitura crítica e analítica

3 Conceitos explorados:
Elementos da fábula 
Elementos da crônica 
Argumentação 
Conectivos.

4 Reprodução do texto utilizado:

Fábula eleitoral para crianças
Paulo Mendes Campos

Um dia, as coisas da natureza quiseram eleger o rei ou a rainha do universo. Os três reinos entraram logo a confabular. Animais, vegetais e minerais começaram a viver uma vida agitada de surtos eloquentes, manobras, recados furtivos, mensagens cifradas, promessas mirabolantes, ardis, intrigas, palpites, conversinhas ao pé do ouvido.

Entre os bichos era um tumulto formidável. Bandos de periquitos saíam em caravana eleitoral, matilhas de cães discursavam dentro da noite, cáfilas de camelos percorriam os desertos, formigas realizavam comícios fantásticos, a rainha das abelhas passava com o seu séquito, sem falar nos cardumes de peixes, nos lobos em alcatéias pelos montes, nas manadas de búfalos pelas savanas, nas revoadas instantâneas dos pombos-correios.

Todas as qualidades eram postas à prova: a astúcia da raposa, a agilidade dos felinos, o engenho dos cupins, o siso da coruja, o poder de intriga das serpentes, a picardia do zorro, a doçura da pomba, a teimosia do burro, o cosmopolitismo dos ratos.

O leão, o tigre, a pantera, o leopardo e outros queriam derramar muito sangue; pássaros coloridos faziam frente única para indicar um pássaro colorido; já os pássaros que cantam decidiram apontar como candidatos o rouxinol, a cotovia, a patativa; as cegonhas, irresolutas, passavam tardes pensando; os patos s­elvagens desfilavam no céu; as andorinhas, tímidas, buscavam o refúgio das igrejas; e a águia, fascista de nascença, pretendia organizar lá no alto uma conferência de que só participassem as aves de rapina, como o falcão, o condor e o gavião-de-penacho.

Os papagaios viviam a arengar bobagens pelas árvores; a raposa corria as várzeas articulando uma candidatura, ninguém sabia qual; os macacos eram vaiados quando alegavam a semelhança com o homem; o cavalo se insinuou candidato, dado a sua condição de antigo senador. O pavão, escondendo os pés, exibia a cauda; nos brejos, os sapos repetiam slogans monótonos; os jacarés e as tartarugas ressonavam na beira dos rios, que passavam levando sussurros quase imperceptíveis, a conversar as pedras e as ervas das margens; o rato do campo ia de vez em quando se aconselhar com o rato da cidade; os gansos citavam velhos costumes romanos; certos bichos, como o boi e a íbis, invocavam direitos divinos, que não eram muito levados a sério; as hienas e os chacais opinavam por um conselho de notáveis, a ser constituído pelos animais ferozes, que lhe deixavam os restos; até a ameba, coitada, queria ser candidata, dizendo-se a origem da vida.

A mosca azul voava e revoava por todos os cantos. Quem será o rei ou a rainha do universo? De dia, as borboletas andavam como doidas pelos campos, à noite, os vaga-lumes acendiam as suas luzes.

Nas profundezas da terra, o carbono fazia estranhas combinações com o hidrogênio. O diamante e o ouro reluziam de esperança. As estrelas pretendiam uma coalizão de todo o espaço constelado em torno de Vênus, causando ciúmes à Lua.

As flores distribuíam perfumes. Árvores agitadas recebiam recados que os ventos traziam de longe. A floresta pensava eleger não um rei, mas um colegiado de carvalhos, velhos, cheios de experiência. E por toda a flora era um germinar, um brotar, um verdejar, um florescer, os monocotiledôneos discordavam dos dicotiledôneos, os fanerógamos acusavam de hipocrisia os criptógamos. A plena campanha eleitoral com todos os incidentes. Só os ciprestes continuavam fechados em sua indiferença.

A despeito dos interesses em choque, e de tantas contradições, é preciso dizer, a bem da verdade, que o pleito transcorreu com a máxima lisura.

Ao fim de tudo, a escolha não podia ter sido mais feliz, pois os três reinos unidos elegeram a rosa rainha suprema do universo.

Sim, a rosa, a rosa na sua simplicidade tocada de esplendor, presa na sua haste entre o céu e a terra, eterna e efêmera, a rosa, carne, espírito e pó. E para entronizar a rainha, o dia se iluminou com a sua luz mais clara, o mar se fez manso, os pássaros cantaram com inspiração, as árvores se puseram mais verdes e mais altas, as flores vestiram roupagens de gala, os seixos rolaram alegremente nas praias, os juncos das lagoas se inclinaram em reverência, as nuvens se desfraldaram como cortinas de gaze sobre o berilo. No fundo do mar era uma alegria silenciosa e solene como um Te-Deum em uma catedral verde-escuro, os polvos gesticulando em câmara lenta, os peixes e as medusas passando sem barulho.

Entre os seres humanos, só as crianças sabiam que era o dia da entronização da rosa, e nada contaram a ninguém. Mas pelo jardim onde se achava a rosa, expectante no seu recato soberano, passava naquela manhã um homem feio e preocupado. Era um candidato a qualquer coisa, a vereador, a deputado, a Presidente da República, não se sabe ao certo. Distraído com as suas ambições, ele colheu a rainha do universo, que entrou logo a fenecer em suas mãos úmidas. Depois, olhou e viu que se tratava de uma bela rosa, uma rosa digna de se oferecer a uma namorada. Mas ele não tinha namorada. Mal-me-quer, bem-me-quer, mal-me-quer... Ele começou a desfolhar a rosa só para saber se dessa vez seria eleito: à Câmara de vereadores, de deputados ou à curul da Presidência da República, não se sabe ao certo. E a rosa morreu. E foi por isso que o dia se fechou de repente, o céu ficou escuro, os animais uivaram nos bosques, os pássaros sumiram, o vento se desatou sobre o mar agora encapelado, o raio e o trovão tomaram conta da noite sem estrelas, e as crianças na hora do jantar perderam a fome. Tinha morrido a rainha do universo.

Mas nas trevas desabrochou outra rosa para iluminar com a sua beleza o jardim amanhecido.

5 Descrição da proposta:

Visa trabalhar a argumentação presente no texto intitulado Fábula eleitoral para crianças, estabelecendo uma relação intertextual entre os discursos eleitorais e a política atual e a apresentada na obra, por meio da análise do uso de conectivos.

6 Explicação das estratégias a serem utilizadas para o desenvolvimento da proposta:

a. Construção coletiva do conceito de Política, por meio da técnica Brainstorming (tempestade cerebral) que consiste em apresentar uma palavra ou tema aos alunos (na lousa e de forma central) e pedir que verbalizem imediatamente, sem certo e errado, sem julgamentos qualquer associação que lhe vier à mente, o professor deve, nesse processo ir anotando palavras chaves ou ideias chaves que surgiram, incentivando ainda mais manifestações e também anotando-as. O processo não deve durar mais do que três minutos. Seguido a isso, passa-se a construir o conceito, junto com os alunos, num canto da lousa. Mesmo que surjam ideias que não tenham nada a ver com o tema o professor deve anotá-las para que ao final seja feita a seleção, pelos próprios alunos, daquilo que é adequado, ou não.
Sugestão de palavras e temas para iniciar o Brainstorming: eleição; política, presidente; "como se escolhe um presidente?" - "Rei X Presidente" - "Governar para quem?"


b. Distribuição de cópia do texto

c. Discussão do título do texto. Os alunos poderão estranhar, na idade deles, ler um texto intitulado para crianças. Relembrar também o conceito e os elementos da fábula.

d. Explicar aos alunos que não devem se preocupar com os termos desconhecidos, pois eles não interferirão na compreensão final e poderão tirar as dúvidas no final da leitura.

e. Leitura do texto silenciosa seguida de leitura em voz alta, com intervenção do professor nos momentos em que julgar adequado.

f. Após a leitura o professor deve pedir que os alunos expressem suas impressões sobre o texto, especialmente sobre o final.

g. Retomar o título do texto e discuti-lo, questionando se realmente o texto foi escrito para crianças, o porquê, o que ele pode ensinar, etc. Explorar a noção de que apesar de intitulado fábula, trata-se de uma crônica, explorar os elementos da crônica (nas séries apontadas eles já trabalharam com esse gênero). Fazer a relação entre os gêneros e explicar porque o  autor (provavelmente) optou por intitula-lo como fábula.

h. Orientar os alunos a retirar (ou grifar) todas as palavras que façam referência à política.

i. Trabalhar com os alunos os conectivos, baseados no texto abaixo (do curso da Cogeae: Da leitura para Redação):

Gramática e Coesão Textual

O estabelecimento da coesão está ligado ao conhecimento do funcionamento da língua, ou seja, da gramática. Costuma-se associar a coesão ao emprego dos pronomes e à concordância. Entretanto, há muitos outros elementos da língua responsáveis pela coesão em um texto. Algumas palavras atuam especificamente na junção dos elementos do discurso, promovendo o que chamamos de coesão sequencial por junção. Essas palavras ocorrem num determinado ponto do texto indicando o modo pelo qual se conectam as porções que se sucedem.
Apresentamos algumas palavras que estabelecem a ligação, isto é, a junção entre as orações e que tipo de relação que elas estabelecem.

Relação de adição; CONJUNÇÃO
Exemplos:
Chove e faz frio.
Não me arrisco nem arrisco você.
Aí ninguém entra. Nem eu.
Ela é afetada, esnobe. E como representa, parece que está sempre no palco.

Relação de contraste, de desigualdade; CONTRAJUNÇÃO
Exemplos:
Fez o que quis mas levou na cabeça.
Jogou muito bem, contudo não conseguiu o título.
Foi à festa embora estivesse doente.
Depenava frangos e não ganhava nada.
Vou bem mas você vai mal.

Relação de alternância; DISJUNÇÃO
Exemplos:
Ou se usa luva ou se usa anel.
Estude bastante para os exames. Ou você já se esqueceu o que aconteceu no ano passado?

Relação de causa-consequência; CAUSALIDADE
Exemplos:
Não estudou e reprovado.
Ele gritou tanto durante o jogo que ficou rouco.
Falou baixo porque havia uma criança dormindo.
Trabalho aqui porque quero.
Se Paulo é homem então é mortal.

Relação de condição; CONDICIONALIDADE
Exemplos:
Caso a senhora não prestar contas, levaremos o problema ao diretor.
A menos que você seja um conselheiro treinado, deixe a tarefa para um profissional.
Se o trabalho não seguir conforme a instrução, delegue-o a outra pessoa.

Relação de finalidade; MEDIAÇÃO
Exemplos:
Fugiu para que não o vissem.
Saiu cedo para chegar a tempo na reunião.
Secou os cabelos a fim de evitar outro resfriado.

Relação de delimitação; RESTRIÇÃO
Exemplos:
Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão.
Comprei os livros que você pediu.

j. Pedir que os alunos localizem no texto, em grupos de quatro alunos, exemplos de elementos coesivos.

k. Pedir que os alunos anotem no papel craft os conectivos encontrados e o número do parágrafo em que apareceram.

l. Colar os papéis craft na lousa, ou na parede e mostrar aos alunos as possíveis diferenças entre um e outro, apontando correções quando necessário. Pode-se criar com a sala uma legenda (com letras ou cores) para cada tipo de relação de coesão e pedir que os alunos a marquem no próprio texto.

m. O professor pode ainda explorar o uso da metáfora neste texto e a presença de substantivos coletivos.

n. O professor pode trabalhar a noção de referente, mas atentando para o fato de que o texto é bastante extenso e no decorrer dele apresenta vários termos que são retomados. Pode-se fazer uso disso para que os alunos localizem as palavras que fazem referência umas às outras, evitando a repetição desnecessária.

o. O uso da pontuação no texto também é interessante, pois a maioria dos alunos não usa adequadamente o ponto e vírgula.

p.Segundo sugestão da professora Silvia Albert, o professor pode ainda trabalhar as características dos animais apresentados na crônica e relacioná-las às figuras do cenário político atual, trabalhando, assim, a crítica e a ironia presentes no texto.

q. Pode-se ainda, segundo ela, trabalhar esses elementos na materialidade do texto, o que significaria um passo a mais no desenvolvimento dos processos de leitura e compreensão dos alunos. Nesse sentido, devemos trabalhar não só os conectivos, mas os operadores argumentativos presentes no texto.

Bibliografia
ANDRADE, C. D.; SABINO, F; CAMPOS, P.M.; BRAGA, R. Para gostar de ler – Volume 5 – Crônicas. São Paulo:Ática, 1980.
MASSETO, Marcos Tarciso. Competência Pedagógica do professor universitário . São Paulo: Simmus, 2003.

Um comentário:

  1. É legal investir nessas aulas que desenvolvam habilidades de ler e interpretar, as crianças precisam de bons professores e atividades que as façam pensar por si mesmas.

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