Páginas

Mostrando postagens com marcador proposta de trabalho. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador proposta de trabalho. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 11 de março de 2011

O que fazer depois da sondagem?

Eu sempre me questionei sobre o que fazer depois de uma atividade diagnóstica, por isso, acho que este post pode ser útil para aqueles que, como eu, são novos na educação e não entendem aqueles manuais!

De fato, todos sabemos que antes de qualquer planejamento é preciso fazer uma sondagem para diagnosticar o tipo de leitura e escrita que os alunos são capazes de fazer. Se a atividade de sondagem que eu postei não serve para sua série, você tem duas opções, pode me mandar um e-mail pedindo ajuda ou pensar em gêneros dentro das esferas linguísticas aos quais os alunos já estejam familiarizados, e fazer três perguntas sobre esse texto, procurando abordar as habilidades de LOCALIZAR, INTERPRETAR e COMPREENDER.

Procure estabelecer um padrão de respostas certas e erradas, mas dê abertura para novas formas de perceber o texto, lembrando sempre que não é porque o aluno escreveu algo coeso e coerente que deve ser considerado correto, porque pode não ser uma resposta para a sua pergunta.

Depois de corrigido, sugiro que se monte um controle que abarque os acertos individuais, mas também possibilite uma visualização geral da turma. Eu sugiro que se faça um X nas alternativas corretas... mas você pode criar outras formas de organização

Modelo: (se precisar, solicite por e-mail raqueldonega@globo.com)


A atividade que eu faço a seguir é a seguinte...
> Seleção dos alunos com as melhores respostas (sempre inicie pelas perguntas com menor número de acertos)
> Organização de grupos com base na qualidade das respostas
> Solicitação para que formulem a melhor resposta para a pergunta, englobando a resposta de todos os participantes da equipe
> Entrega de cartolina (ou papel craft) para que cada grupo escreva sua resposta
> Compartilhamento da resposta e explicação para toda a turma

bjks

Quel Donegá

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Tipologia e gênero textual na sala de aula

O ensino de língua portuguesa sofreu alterações preciosas nas últimas décadas, pois a forma como trabalhamos produção e leitura de textos foi modificada a partir das contribuições trazidas por Bahktin e por outros estudiosos da linguísticas (como Koch e Fiorin, no Brasil). O fato é que já não é mais possível fazer leituras dissociadas de contexto histórico e social e que é preciso trabalhar produções e leituras de textos a partir da perspectiva das tipologias e gêneros textuais.
Quando iniciei minha carreira no magistério, já gostava muito de linguística e escrevo por diversão sempre procurei trabalhar a leitura e produção de textos de forma divertida. Partindo disso, acredito que contar uma das práticas é sempre mais relevante do que defender uma ideia que já foi comprada e distribuída.
Certa vez, com turmas de 7ºano (Na E.E. Leda Guimarães Natal), entrei na sala e dividi a lousa em três partes de tamanhos mais ou menos iguais. Na primeira, escrevi a receita de brigadeiro (é importante colocar todos os elementos da receita), na segunda escrevi vários poeminhas de Quintana (escolha com e seu rimas) e deixei a terceira em branco.
Sugestão de receitaBRIGADEIRO
Ingredientes 1 lata de Leite MOÇA® Tradicional 3 colheres (sopa) de Chocolate em Pó  1 colher (sopa) de manteiga
 1 xícara (chá) de chocolate granulado
 Manteiga para untar
Modo de PreparoEm uma panela, coloque o LEITE MOÇA®, o Chocolate em Pó DOIS FRADES® e a manteiga. Misture bem e leve ao fogo baixo, mexendo sempre até desprender do fundo da panela (cerca de 10 minutos). Retire do fogo, passe para um prato untado com manteiga e deixe esfriar. Enrole em bolinhas e passe pelo chocolate granulado. Coloque em forminhas de papel.Rendimento: 40 brigadeiros
Tempo de Preparo: 30 minNível de Dificuldade: FácilCusto: $ - Baixo

Poeminhas do Mário Quintana
DAS UTOPIAS
Se as coisas são inatingíveis... ora!Não é motivo para não querê-las...Que tristes os caminhos se não foraa mágica presença das estrelas!
BILHETE
Se tu me amas,ama-me baixinho.
Não o grites de cima dos telhados,deixa em paz os passarinhos.
Deixa em paz a mim!
Se me queres,enfim,
....tem de ser bem devagarinho,....amada,
....que a vida é breve,....e o amor....mais breve ainda.
DA OBSERVAÇÃONão te irrites, por mais que te fizerem...Estuda, a frio, o coração alheio.Farás, assim, do mal que eles te querem,Teu mais amável e sutil recreio...
DA DISCRIÇÃONão te abras com teu amigoQue ele um outro amigo tem.E o amigo do teu amigoPossui amigos também...
(os dois últimos são particularmente bons, pois trazem os verbos no imperativo)



Em seguida, perguntei aos alunos o que era aquilo na lousa. Rapidamente me disseram que era uma receita, mas tiveram várias opções para as trovas (poemas, poesia, versinhos, música, rimas etc). Perguntei como sabiam e a maioria deles respondeu de forma irritada, como se fosse a coisa mais natural do mundo saber que textos eram aqueles (mesmo os que nunca tinham lido aquela receita que coloquei e os versinhos ali postos). Então retomei com eles a questão da estrutura dos dois textos (Acho interessante colocar os elementos textuais em um papel pardo, com letras grandes, para depois colar na parede). Terminado isso, falei que poderiam adiantar a conversa, porque eu colocaria um segundo texto. Então escrevi algo como:

RECEITA PARA IRRITAR PROFESSOR


Ingredientes1 professor1 aluno mal-educado39 alunos comuns10 palavrões1 lata de lixo10 folhas de papel

Modo de preparoColoque todos os alunos numa sala de aula (inclusive o mal-educado). Distribua as folhas de papel aleatoriamente e faça uma bola com uma e peça que joguem na cabeça de alguém. Faça um avião com outra folha e peça que o joguem pelo ar, não se preocupe com as outras, automaticamente se tornarão bolas ou aviões.Os alunos que receberem as boladas distribuirão os palavrões pelo ambiente. Um aluno mal educado deve chutar o lixo, derrubando toda a sujeira pela sala.Chame o professor (ou espere que ele apareça caso toque o sinal). Pode servir!É suficiente para cerca de 10 professores, 1 diretor e 2 coordenadores presentes.Cuidado para não servir quente demais, pode ser servido com convocação para os pais de sobremesa.Não misture todos os ingredientes de uma única vez, há risco de suspensão coletiva e reunião de pais com urgência.Tempo de preparo: 5 minutosNível de dificuldade: Fácil, não precisa de ajuda de adultos.


É claro que os alunos pararam de conversar enquanto eu escrevia a receita na lousa (para cada sala eu trabalhava uma receita final diferente), eu os ouvia rindo, brincando, sugerindo nossos passos. Foi muito divertido.
Em seguida, perguntei que texto era aquele. Então começou uma briga, uns diziam que era receita, outros que eram instruções, alguns, manual etc. Então eu expliquei para eles que todos estavam certos, que eu havia misturado os diferentes gêneros que eles conheciam em um único texto e que agora era a vez deles de criar. Ao que sugeri alguns temas, como receitas de amor, raiva, inveja, jogo de futebol, paixão, namorado perfeito etc., que deveriam ser escritos baseados na estrutura da receita (com ingredientes e modo de preparo, verbos no imperativo, por exemplo), mas com temas que não podiam ser feitos no forno e fogão.
Ainda tenho alguns textos dos alunos. Ficaram maravilhosos e eles adoraram, fizeram, inclusive uma exposição no corredor com os melhores textos.
É isso!

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Variação linguística na sala de aula


É muito comum, ainda nos dias de hoje, que os professores trabalhem a variação linguística sob a perspectiva do certo e errado na língua, pois acreditasse que a escola deve ser o local que privilegia a aprendizagem da norma padrão (formal ou informal, escrita ou falada). No entanto, é preciso ter cuidado ao promover tal privilégio, pois segundo Bechara (No livro, Ensino de Gramática. Opressão? Liberdade?) é preciso que mais do que um conhecedor de vários idiomas, o aluno se torne poliglota na própria língua, dominando, nesse processo, a forma adequada de usar a própria língua de acordo com o contexto.

Não é necessário, pois, que o professor ensine o aluno a falar como um mineiro, mas sim que o ensine a respeitar alguém que faz uso dessa variante. Aliás, observem a charge a seguir e reflitam sobre o cuidado que devemos ter para não acabar privilegiando as variantes. O professor não deve se apropriar da variante do aluno, sob o risco de causar conflito intelectual (se é que isso existe) ao aluno, que sabe intuitivamente que a forma de um adulto falar (especialmente de professores) é diferente da forma de uma criança ou adolescente.


O curso de Formação de Professores, promovido pela SEE-SP, ofereceu a seguinte aula como proposta para análise e reflexão:

“A professora inicia comentando sobre o texto. Em seguida, pede que os alunos leiam o texto em silêncio. Depois, solicita que os alunos marquem no texto as “palavras erradas” e reescrevam no caderno como seria a escrita correta. Feita essa atividade, começa a ler o texto junto com os alunos em voz alta, comentando as diferenças linguísticas “o chamado erro de português”. O que mais chama a atenção dos alunos e da professora é a forma como as palavras estão registradas no diálogo.

O texto a que o trecho acima se refere é este:
Dois caipiras encontram-se numa praça e conversam:
- Oi cumpadi. CE tá bom?
- Ma ou meno.
- Má o que tá acontecendo. O casório num tá bem?
- É que a Mariazinha num que mais cuida das coisa de casa. Ela diz que tem um tal de feminismo que diz que eu tumem tenho de fazê as coisas. Cumpade, cume é que vô lava ropa? E faze comida?
- Ah cumpade, tenho a solução: arruma outra mulhé para ajuda...
- Hum, boa ideia! Mas será que a patroa vai gostar?
- Bem, se ela reclama, ai o cumpadi diz que ou ela faz, ou a mulhé vai fazê. Ai, pode ter certeza que ela num vai gosta de ter outra mulhé em casa, ai ela vai fazê...
Acredito que o texto trabalhado pela professora ofereça muito mais aspectos a serem discutidos e analisados do que a serem corrigidos. Seria interessante trabalhar essa proposta num momento em que se trabalhasse o gênero CAUSO, por exemplo, pois, em geral, são utilizadas variantes típicas de regiões como Minas Gerais, cidades interioranas, vilas e regiões rurais. Mas parece inadequado solicitar que os alunos façam a correção do texto, pois tal atividade daria a entender que o diálogo está inadequado à situação de uso. Logo, seria mais interessante pedir que os alunos adaptassem o texto a diferentes situações, como dois advogados conversando no escritório, dois senhores de 70 anos conversando sobre suas esposas no Rio Grande do Sul, dois adolescentes reclamando da namorada, etc (Repare quantas alterações teria de ser feitas nesses casos).

Quanto à adequação deste texto em relação ao seu uso na sala de aula, pode-se dizer ele é adequado para introduzir o trabalho com as variações linguísticas, mas a abordagem da professora foi inadequada, pois não favorece a percepção das variantes e ainda as desvaloriza ao solicitar correções (lembremos de que só corrigimos o que está errado!). O objetivo da professora talvez tenha sido o de mostrar que a língua falada pode apresentar diferenças de expressão em relação à língua escrita propagada no ambiente escolar, entretanto, ela só plantou a sementinha do preconceito linguístico. Assim, é preciso sempre deixar muito claro o que se está ensinando e observar o que os alunos estão apreendendo sobre aquilo.

Eu não iniciaria o trabalho com esse texto, pois sempre procuro trazer piadas, charges, HQs, causos ou músicas ao iniciar o conteúdo referente às variações linguísticas. Às vezes, para introduzir o tema, o professor pode entrar na sala usando uma linguagem totalmente inadequada ao gênero AULA (usar gírias por exemplo, ou falar como carioca, ou iniciar falando como um repórter), para causar estranhamento nos alunos, dessa forma, poderá introduzir, antes do tema “variação linguística” o tema adequação linguística, pois ambos devem ser trabalhados paralelamente.

Numa sala bastante participativa, pode-se pedir para que cada grupo de alunos centre-se em um tipo de variação e traga uma música que apresente tal aspecto linguístico. Por exemplo, um grupo traz uma música muito antiga e outra mais nova, para mostrar gírias antigas e as que utilizamos atualmente. Outro grupo traz uma música que apresente uma variante regional do nordeste, enquanto um traz uma música do sul. Pode-se, inclusive, pedir que um grupo procure músicas que contenham neologismos e estrangeirismos, entre outros. Os grupos devem, além da música, apresentar o conceito norteador do trabalho.

Há vários vídeos muito bons abordando o tema no YouTube.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Roteiro de trabalho – Fábula Eleitoral para Crianças




1 Série a que se destina:
3º Ano - EM e/ou 9º ano EF


2 Objetivos:
Desenvolver as competências leitoras e escritoras de textos literários dentro da tipologia narrativa, com presença de argumentação e figuras de linguagem.
Explorar os gêneros fábula e crônica (inter-relacionar os gêneros)
Explorar o texto e a percepção dos conectivos e suas funções
Identificar o tema do texto
Desenvolver leitura crítica e analítica

3 Conceitos explorados:
Elementos da fábula 
Elementos da crônica 
Argumentação 
Conectivos.

4 Reprodução do texto utilizado:

Fábula eleitoral para crianças
Paulo Mendes Campos

Um dia, as coisas da natureza quiseram eleger o rei ou a rainha do universo. Os três reinos entraram logo a confabular. Animais, vegetais e minerais começaram a viver uma vida agitada de surtos eloquentes, manobras, recados furtivos, mensagens cifradas, promessas mirabolantes, ardis, intrigas, palpites, conversinhas ao pé do ouvido.

Entre os bichos era um tumulto formidável. Bandos de periquitos saíam em caravana eleitoral, matilhas de cães discursavam dentro da noite, cáfilas de camelos percorriam os desertos, formigas realizavam comícios fantásticos, a rainha das abelhas passava com o seu séquito, sem falar nos cardumes de peixes, nos lobos em alcatéias pelos montes, nas manadas de búfalos pelas savanas, nas revoadas instantâneas dos pombos-correios.

Todas as qualidades eram postas à prova: a astúcia da raposa, a agilidade dos felinos, o engenho dos cupins, o siso da coruja, o poder de intriga das serpentes, a picardia do zorro, a doçura da pomba, a teimosia do burro, o cosmopolitismo dos ratos.

O leão, o tigre, a pantera, o leopardo e outros queriam derramar muito sangue; pássaros coloridos faziam frente única para indicar um pássaro colorido; já os pássaros que cantam decidiram apontar como candidatos o rouxinol, a cotovia, a patativa; as cegonhas, irresolutas, passavam tardes pensando; os patos s­elvagens desfilavam no céu; as andorinhas, tímidas, buscavam o refúgio das igrejas; e a águia, fascista de nascença, pretendia organizar lá no alto uma conferência de que só participassem as aves de rapina, como o falcão, o condor e o gavião-de-penacho.

Os papagaios viviam a arengar bobagens pelas árvores; a raposa corria as várzeas articulando uma candidatura, ninguém sabia qual; os macacos eram vaiados quando alegavam a semelhança com o homem; o cavalo se insinuou candidato, dado a sua condição de antigo senador. O pavão, escondendo os pés, exibia a cauda; nos brejos, os sapos repetiam slogans monótonos; os jacarés e as tartarugas ressonavam na beira dos rios, que passavam levando sussurros quase imperceptíveis, a conversar as pedras e as ervas das margens; o rato do campo ia de vez em quando se aconselhar com o rato da cidade; os gansos citavam velhos costumes romanos; certos bichos, como o boi e a íbis, invocavam direitos divinos, que não eram muito levados a sério; as hienas e os chacais opinavam por um conselho de notáveis, a ser constituído pelos animais ferozes, que lhe deixavam os restos; até a ameba, coitada, queria ser candidata, dizendo-se a origem da vida.

A mosca azul voava e revoava por todos os cantos. Quem será o rei ou a rainha do universo? De dia, as borboletas andavam como doidas pelos campos, à noite, os vaga-lumes acendiam as suas luzes.

Nas profundezas da terra, o carbono fazia estranhas combinações com o hidrogênio. O diamante e o ouro reluziam de esperança. As estrelas pretendiam uma coalizão de todo o espaço constelado em torno de Vênus, causando ciúmes à Lua.

As flores distribuíam perfumes. Árvores agitadas recebiam recados que os ventos traziam de longe. A floresta pensava eleger não um rei, mas um colegiado de carvalhos, velhos, cheios de experiência. E por toda a flora era um germinar, um brotar, um verdejar, um florescer, os monocotiledôneos discordavam dos dicotiledôneos, os fanerógamos acusavam de hipocrisia os criptógamos. A plena campanha eleitoral com todos os incidentes. Só os ciprestes continuavam fechados em sua indiferença.

A despeito dos interesses em choque, e de tantas contradições, é preciso dizer, a bem da verdade, que o pleito transcorreu com a máxima lisura.

Ao fim de tudo, a escolha não podia ter sido mais feliz, pois os três reinos unidos elegeram a rosa rainha suprema do universo.

Sim, a rosa, a rosa na sua simplicidade tocada de esplendor, presa na sua haste entre o céu e a terra, eterna e efêmera, a rosa, carne, espírito e pó. E para entronizar a rainha, o dia se iluminou com a sua luz mais clara, o mar se fez manso, os pássaros cantaram com inspiração, as árvores se puseram mais verdes e mais altas, as flores vestiram roupagens de gala, os seixos rolaram alegremente nas praias, os juncos das lagoas se inclinaram em reverência, as nuvens se desfraldaram como cortinas de gaze sobre o berilo. No fundo do mar era uma alegria silenciosa e solene como um Te-Deum em uma catedral verde-escuro, os polvos gesticulando em câmara lenta, os peixes e as medusas passando sem barulho.

Entre os seres humanos, só as crianças sabiam que era o dia da entronização da rosa, e nada contaram a ninguém. Mas pelo jardim onde se achava a rosa, expectante no seu recato soberano, passava naquela manhã um homem feio e preocupado. Era um candidato a qualquer coisa, a vereador, a deputado, a Presidente da República, não se sabe ao certo. Distraído com as suas ambições, ele colheu a rainha do universo, que entrou logo a fenecer em suas mãos úmidas. Depois, olhou e viu que se tratava de uma bela rosa, uma rosa digna de se oferecer a uma namorada. Mas ele não tinha namorada. Mal-me-quer, bem-me-quer, mal-me-quer... Ele começou a desfolhar a rosa só para saber se dessa vez seria eleito: à Câmara de vereadores, de deputados ou à curul da Presidência da República, não se sabe ao certo. E a rosa morreu. E foi por isso que o dia se fechou de repente, o céu ficou escuro, os animais uivaram nos bosques, os pássaros sumiram, o vento se desatou sobre o mar agora encapelado, o raio e o trovão tomaram conta da noite sem estrelas, e as crianças na hora do jantar perderam a fome. Tinha morrido a rainha do universo.

Mas nas trevas desabrochou outra rosa para iluminar com a sua beleza o jardim amanhecido.

5 Descrição da proposta:

Visa trabalhar a argumentação presente no texto intitulado Fábula eleitoral para crianças, estabelecendo uma relação intertextual entre os discursos eleitorais e a política atual e a apresentada na obra, por meio da análise do uso de conectivos.

6 Explicação das estratégias a serem utilizadas para o desenvolvimento da proposta:

a. Construção coletiva do conceito de Política, por meio da técnica Brainstorming (tempestade cerebral) que consiste em apresentar uma palavra ou tema aos alunos (na lousa e de forma central) e pedir que verbalizem imediatamente, sem certo e errado, sem julgamentos qualquer associação que lhe vier à mente, o professor deve, nesse processo ir anotando palavras chaves ou ideias chaves que surgiram, incentivando ainda mais manifestações e também anotando-as. O processo não deve durar mais do que três minutos. Seguido a isso, passa-se a construir o conceito, junto com os alunos, num canto da lousa. Mesmo que surjam ideias que não tenham nada a ver com o tema o professor deve anotá-las para que ao final seja feita a seleção, pelos próprios alunos, daquilo que é adequado, ou não.
Sugestão de palavras e temas para iniciar o Brainstorming: eleição; política, presidente; "como se escolhe um presidente?" - "Rei X Presidente" - "Governar para quem?"


b. Distribuição de cópia do texto

c. Discussão do título do texto. Os alunos poderão estranhar, na idade deles, ler um texto intitulado para crianças. Relembrar também o conceito e os elementos da fábula.

d. Explicar aos alunos que não devem se preocupar com os termos desconhecidos, pois eles não interferirão na compreensão final e poderão tirar as dúvidas no final da leitura.

e. Leitura do texto silenciosa seguida de leitura em voz alta, com intervenção do professor nos momentos em que julgar adequado.

f. Após a leitura o professor deve pedir que os alunos expressem suas impressões sobre o texto, especialmente sobre o final.

g. Retomar o título do texto e discuti-lo, questionando se realmente o texto foi escrito para crianças, o porquê, o que ele pode ensinar, etc. Explorar a noção de que apesar de intitulado fábula, trata-se de uma crônica, explorar os elementos da crônica (nas séries apontadas eles já trabalharam com esse gênero). Fazer a relação entre os gêneros e explicar porque o  autor (provavelmente) optou por intitula-lo como fábula.

h. Orientar os alunos a retirar (ou grifar) todas as palavras que façam referência à política.

i. Trabalhar com os alunos os conectivos, baseados no texto abaixo (do curso da Cogeae: Da leitura para Redação):

Gramática e Coesão Textual

O estabelecimento da coesão está ligado ao conhecimento do funcionamento da língua, ou seja, da gramática. Costuma-se associar a coesão ao emprego dos pronomes e à concordância. Entretanto, há muitos outros elementos da língua responsáveis pela coesão em um texto. Algumas palavras atuam especificamente na junção dos elementos do discurso, promovendo o que chamamos de coesão sequencial por junção. Essas palavras ocorrem num determinado ponto do texto indicando o modo pelo qual se conectam as porções que se sucedem.
Apresentamos algumas palavras que estabelecem a ligação, isto é, a junção entre as orações e que tipo de relação que elas estabelecem.

Relação de adição; CONJUNÇÃO
Exemplos:
Chove e faz frio.
Não me arrisco nem arrisco você.
Aí ninguém entra. Nem eu.
Ela é afetada, esnobe. E como representa, parece que está sempre no palco.

Relação de contraste, de desigualdade; CONTRAJUNÇÃO
Exemplos:
Fez o que quis mas levou na cabeça.
Jogou muito bem, contudo não conseguiu o título.
Foi à festa embora estivesse doente.
Depenava frangos e não ganhava nada.
Vou bem mas você vai mal.

Relação de alternância; DISJUNÇÃO
Exemplos:
Ou se usa luva ou se usa anel.
Estude bastante para os exames. Ou você já se esqueceu o que aconteceu no ano passado?

Relação de causa-consequência; CAUSALIDADE
Exemplos:
Não estudou e reprovado.
Ele gritou tanto durante o jogo que ficou rouco.
Falou baixo porque havia uma criança dormindo.
Trabalho aqui porque quero.
Se Paulo é homem então é mortal.

Relação de condição; CONDICIONALIDADE
Exemplos:
Caso a senhora não prestar contas, levaremos o problema ao diretor.
A menos que você seja um conselheiro treinado, deixe a tarefa para um profissional.
Se o trabalho não seguir conforme a instrução, delegue-o a outra pessoa.

Relação de finalidade; MEDIAÇÃO
Exemplos:
Fugiu para que não o vissem.
Saiu cedo para chegar a tempo na reunião.
Secou os cabelos a fim de evitar outro resfriado.

Relação de delimitação; RESTRIÇÃO
Exemplos:
Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão.
Comprei os livros que você pediu.

j. Pedir que os alunos localizem no texto, em grupos de quatro alunos, exemplos de elementos coesivos.

k. Pedir que os alunos anotem no papel craft os conectivos encontrados e o número do parágrafo em que apareceram.

l. Colar os papéis craft na lousa, ou na parede e mostrar aos alunos as possíveis diferenças entre um e outro, apontando correções quando necessário. Pode-se criar com a sala uma legenda (com letras ou cores) para cada tipo de relação de coesão e pedir que os alunos a marquem no próprio texto.

m. O professor pode ainda explorar o uso da metáfora neste texto e a presença de substantivos coletivos.

n. O professor pode trabalhar a noção de referente, mas atentando para o fato de que o texto é bastante extenso e no decorrer dele apresenta vários termos que são retomados. Pode-se fazer uso disso para que os alunos localizem as palavras que fazem referência umas às outras, evitando a repetição desnecessária.

o. O uso da pontuação no texto também é interessante, pois a maioria dos alunos não usa adequadamente o ponto e vírgula.

p.Segundo sugestão da professora Silvia Albert, o professor pode ainda trabalhar as características dos animais apresentados na crônica e relacioná-las às figuras do cenário político atual, trabalhando, assim, a crítica e a ironia presentes no texto.

q. Pode-se ainda, segundo ela, trabalhar esses elementos na materialidade do texto, o que significaria um passo a mais no desenvolvimento dos processos de leitura e compreensão dos alunos. Nesse sentido, devemos trabalhar não só os conectivos, mas os operadores argumentativos presentes no texto.

Bibliografia
ANDRADE, C. D.; SABINO, F; CAMPOS, P.M.; BRAGA, R. Para gostar de ler – Volume 5 – Crônicas. São Paulo:Ática, 1980.
MASSETO, Marcos Tarciso. Competência Pedagógica do professor universitário . São Paulo: Simmus, 2003.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Roteiro de abordagem para Chapeuzinho Amarelo - do Chico Buarque

1 Série a que se destina:
1º Ano – Ciclo II – Ensino Fundamental 2 Objetivos: Desenvolver as competências leitoras e escritoras de textos poéticos dentro da tipologia narrativa. Relacionar imagens e texto Perceber as características dos textos poéticos Relacionar título ao texto Perceber rimas e ritmo textuais Identificar o tema do texto 3 Conceitos explorados:
Linguagem poética (verso, estrofe, ritmo e rima) texto narrativo (situação inicial, conflito, clímax e situação final), elementos da narrativa (foco narrativo e personagens)
4 Reprodução do texto utilizado:
Chapeuzinho Amarelo – Chico Buarque
Era a Chapeuzinho Amarelo.
Amarelada de medo.
Tinha medo de tudo, aquela Chapeuzinho.
Já não ria.
Em festa, não aparecia.
Não subia escada, nem descia.
Não estava resfriada, mas tossia.
Ouvia conto de fada, e estremecia.
Não brincava mais de nada, nem de amarelinha.
Tinha medo de trovão.
Minhoca, pra ela, era cobra.
E nunca apanhava sol, porque tinha medo da sombra.
Não ia pra fora pra não se sujar.
Não tomava sopa pra não ensopar.
Não tomava banho pra não descolar.
Não falava nada pra não engasgar.
Não ficava em pé com medo de cair.
Então vivia parada, deitada, mas sem dormir, com medo de pesadelo.
Era a Chapeuzinho Amarelo…
E de todos os medos que tinha
O medo mais que medonho era o medo do tal do LOBO.
Um LOBO que nunca se via,
que morava lá pra longe,
do outro lado da montanha,
num buraco da Alemanha,
cheio de teia de aranha,
numa terra tão estranha,
que vai ver que o tal do LOBO
nem existia.
Mesmo assim a Chapeuzinho
tinha cada vez mais medo do medo do medo
do medo de um dia encontrar um LOBO.
Um LOBO que não existia.
E Chapeuzinho amarelo,
de tanto pensar no LOBO,
de tanto sonhar com o LOBO,
de tanto esperar o LOBO,
um dia topou com ele
que era assim:
carão de LOBO,
olhão de LOBO,
jeitão de LOBO,
e principalmente um bocão
tão grande que era capaz de comer duas avós,
um caçador, rei, princesa, sete panelas de arroz…
e um chapéu de sobremesa.
Mas o engraçado é que,
assim que encontrou o LOBO,
a Chapeuzinho Amarelo
foi perdendo aquele medo:
o medo do medo do medo do medo que tinha do LOBO.
Foi ficando só com um pouco de medo daquele lobo.
Depois acabou o medo e ela ficou só com o lobo.
O lobo ficou chateado de ver aquela menina
olhando pra cara dele,
só que sem o medo dele.
Ficou mesmo envergonhado, triste, murcho e branco-azedo,
porque um lobo, tirado o medo, é um arremedo de lobo.
É feito um lobo sem pelo.
Um lobo pelado.
O lobo ficou chateado.
Ele gritou: sou um LOBO!
Mas a Chapeuzinho, nada.
E ele gritou: EU SOU UM LOBO!!!
E a Chapeuzinho deu risada.
E ele berrou: EU SOU UM LOBO!!!!!!!!!!
Chapeuzinho, já meio enjoada,
com vontade de brincar de outra coisa.
Ele então gritou bem forte aquele seu nome de LOBO
umas vinte e cinco vezes,
que era pro medo ir voltando e a menininha saber
com quem não estava falando:
LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO
Aí, Chapeuzinho encheu e disse:
"Pára assim! Agora! Já! Do jeito que você tá!"
E o lobo parado assim, do jeito que o lobo estava, já não era mais um LO-BO.
Era um BO-LO.
Um bolo de lobo fofo, tremendo que nem pudim, com medo de Chapeuzim.
Com medo de ser comido, com vela e tudo, inteirim.
Chapeuzinho não comeu aquele bolo de lobo,
porque sempre preferiu de chocolate.
Aliás, ela agora come de tudo, menos sola de sapato.
Não tem mais medo de chuva, nem foge de carrapato.
Cai, levanta, se machuca, vai à praia, entra no mato,
Trepa em árvore, rouba fruta, depois joga amarelinha,
com o primo da vizinha, com a filha do jornaleiro,
com a sobrinha da madrinha
e o neto do sapateiro.
Mesmo quando está sozinha, inventa uma brincadeira.
E transforma em companheiro cada medo que ela tinha:
O raio virou orrái;
barata é tabará;
a bruxa virou xabru;
e o diabo é bodiá.
FIM
(Ah, outros companheiros da Chapeuzinho Amarelo:
o Gãodra, a Jacoru,
o Barãotu, o Pão Bichôpa…
e todos os tronsmons).
5 Descrição da proposta: Esta proposta visa trabalhar a narratividade presente nos textos poéticos, estabelecendo uma relação intertextual entre os textos “Chapeuzinho Vermelho” e “Chapeuzinho Amarelo”. 6 Explicação das estratégias a serem utilizadas para o desenvolvimento da proposta: a. Reconstrução da História da Chapeuzinho Vermelho oralmente com os alunos. b. Distribuição de cópia do poema (ou reprodução dele no datashow) para que os alunos possam acompanhar a leitura c. Leitura do poema em voz alta, com intervenção do professor com perguntas como: “Por que será que este chapéu é amarelo e não vermelho?”, “Em que pensamos quando vemos a cor amarela?”... etc (nesse momento é bom que o professor esteja com o livro mesmo, sei da dificuldade que é ter o livro, mas ele custa cerca de R$25,00 e é uma obra prima da literatura infantil) d. Exploração dos medos das crianças “porque ela tinha tanto medo e do que?”... “porque o lobo fica chateado?” e. Reprodução (quando possível) das imagens que compõem o livro, ou mostragem do livro. f. Reconstrução da narrativa, com os alunos. Buscando responder: Quem? Onde? Quando? Como? Por quê? g. Destacar para os alunos a estrutura poética do poema, relembrando os conceitos de verso, estrofe e rima. h. Trabalhar algumas rimas do poema com os alunos. Observação
Sempre que trabalho este texto com meus alunos faço uma atividade de análise do texto e peço para que eles listem pelo menos 30 coisas de que já tiveram ou de que tem medo, dizendo quais os motivos dos seus medos. Em seguida, fazemos uma espécie de roda do medo em que vamos jogando os medos na roda e discutindo o porquê deles existirem e se há algo que justifique permanecer com medo deles. Por exemplo, eles concordam que não precisam ter medo de escuro, mas muitos acham que precisam ter medo da diretora da escola. Por fim, faço uma relação entre a Chapeuzinho Vermelho e o medo e a Chapeuzinho Amarelo.