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terça-feira, 26 de outubro de 2010

Ensino de vocabulário

Ensinar? Ensinar... Ensinar!

Conceito complicado esse de ensinar vocabulário. Pode-se ensinar tudo, qualquer coisa, a qualquer pessoa e em qualquer lugar, mas o problema não está em ensinar, o quê da questão está no aprender.

Acredito que seja possível ensinar vocabulário, mas como uma prática cotidiana. É inviável montar um plano de aula tendo como objetivo principal o ensino de vocabulário, mas como objetivo secundário, sempre que executamos a leitura de um texto ou mantemos um diálogo com os alunos estamos ensinando vocabulário para eles, e ampliando seu repertório.

Sugiro, pois, algumas práticas que eu realizo desde que comecei a dar aulas.
O vocabulário de um adulto (especialmente se este tem nível superior) é, geralmente, mais abrangente que o das crianças. Entretanto, não acredito que o professor deva o tempo todo modificar sua forma de falar para lecionar, pois o encontro do vocabulário mais complexo do professor com o vocabulário em processo de enriquecimento do aluno, gera no aprendiz curiosidade e ao depreender o sentido (ou perguntar ao professor o que ele quis dizer) o aluno vai se apropriando de palavras que originalmente não fariam parte do seu repertório.

Conheço muitos colegas que ao começar a dar aula "empobreceram" seu vocabulário, pois ficam sempre em busca de adequá-lo ao de seus alunos, sem perceber que o uso de palavras desconhecidas é rico para eles.

Eu procuro, nesse sentido, trazer pelo menos uma palavra nova ao dia e sempre que possível ler textos com palavras que não façam parte do uso dos alunos.

A piadinha abaixo (talvez infame) mostra o quanto somos receosos diante de novas palavras. Vejamos:

"Organizando as FINANÇAS

Para mostrar ao filho o valor do dinheiro e tentar diminuir suas despesas, a mãe ensinou o menino a escrever uma lista de tudo que gastava com a sua mesada. Um dia, enquanto anotava suas despesas, o garoto disse:
- Sabe mamãe, desde que comecei a anotar tudo que gasto, sempre penso antes de comprar.
A mãe ficou toda contente, até que o filho completou:
- Nunca compro nada que seja difícil de escrever!"

http://atrevidinha.uol.com.br/atrevidinha/beleza-idolos/67/artigo154263-1.asp

Será que nós professores também não acabamos vendendo pros alunos apenas aquilo que é mais fácil de explicar?

Outro modo: é comum que as atividades que desenvolvam vocabulário façam também o uso do dicionário. Mas qual sentido damos de verdade a essa prática? Eu percebi, depois de 2 anos trabalhando com dicionário do jeito que meus professores fizeram comigo (localizar a palavra, copiar os sentidos presentes no caderno e fim) que essa prática nunca me ensinou nada de vocabulário (triste!), então continuei a trabalhar o uso de dicionário com meus alunos, mas eu peço que localizem a palavra, verifiquem pelo contexto qual o significado mais apropriado e anotem apenas aquele que faz sentido.

Pode-se ainda pedir que o aluno construa frases com essa palavra, mas também é preciso pensar se vai haver sentido em tal atividade ou apenas a repetição do vocábulo sem contextualização verdadeira,

É isso...

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Variação linguística na sala de aula


É muito comum, ainda nos dias de hoje, que os professores trabalhem a variação linguística sob a perspectiva do certo e errado na língua, pois acreditasse que a escola deve ser o local que privilegia a aprendizagem da norma padrão (formal ou informal, escrita ou falada). No entanto, é preciso ter cuidado ao promover tal privilégio, pois segundo Bechara (No livro, Ensino de Gramática. Opressão? Liberdade?) é preciso que mais do que um conhecedor de vários idiomas, o aluno se torne poliglota na própria língua, dominando, nesse processo, a forma adequada de usar a própria língua de acordo com o contexto.

Não é necessário, pois, que o professor ensine o aluno a falar como um mineiro, mas sim que o ensine a respeitar alguém que faz uso dessa variante. Aliás, observem a charge a seguir e reflitam sobre o cuidado que devemos ter para não acabar privilegiando as variantes. O professor não deve se apropriar da variante do aluno, sob o risco de causar conflito intelectual (se é que isso existe) ao aluno, que sabe intuitivamente que a forma de um adulto falar (especialmente de professores) é diferente da forma de uma criança ou adolescente.


O curso de Formação de Professores, promovido pela SEE-SP, ofereceu a seguinte aula como proposta para análise e reflexão:

“A professora inicia comentando sobre o texto. Em seguida, pede que os alunos leiam o texto em silêncio. Depois, solicita que os alunos marquem no texto as “palavras erradas” e reescrevam no caderno como seria a escrita correta. Feita essa atividade, começa a ler o texto junto com os alunos em voz alta, comentando as diferenças linguísticas “o chamado erro de português”. O que mais chama a atenção dos alunos e da professora é a forma como as palavras estão registradas no diálogo.

O texto a que o trecho acima se refere é este:
Dois caipiras encontram-se numa praça e conversam:
- Oi cumpadi. CE tá bom?
- Ma ou meno.
- Má o que tá acontecendo. O casório num tá bem?
- É que a Mariazinha num que mais cuida das coisa de casa. Ela diz que tem um tal de feminismo que diz que eu tumem tenho de fazê as coisas. Cumpade, cume é que vô lava ropa? E faze comida?
- Ah cumpade, tenho a solução: arruma outra mulhé para ajuda...
- Hum, boa ideia! Mas será que a patroa vai gostar?
- Bem, se ela reclama, ai o cumpadi diz que ou ela faz, ou a mulhé vai fazê. Ai, pode ter certeza que ela num vai gosta de ter outra mulhé em casa, ai ela vai fazê...
Acredito que o texto trabalhado pela professora ofereça muito mais aspectos a serem discutidos e analisados do que a serem corrigidos. Seria interessante trabalhar essa proposta num momento em que se trabalhasse o gênero CAUSO, por exemplo, pois, em geral, são utilizadas variantes típicas de regiões como Minas Gerais, cidades interioranas, vilas e regiões rurais. Mas parece inadequado solicitar que os alunos façam a correção do texto, pois tal atividade daria a entender que o diálogo está inadequado à situação de uso. Logo, seria mais interessante pedir que os alunos adaptassem o texto a diferentes situações, como dois advogados conversando no escritório, dois senhores de 70 anos conversando sobre suas esposas no Rio Grande do Sul, dois adolescentes reclamando da namorada, etc (Repare quantas alterações teria de ser feitas nesses casos).

Quanto à adequação deste texto em relação ao seu uso na sala de aula, pode-se dizer ele é adequado para introduzir o trabalho com as variações linguísticas, mas a abordagem da professora foi inadequada, pois não favorece a percepção das variantes e ainda as desvaloriza ao solicitar correções (lembremos de que só corrigimos o que está errado!). O objetivo da professora talvez tenha sido o de mostrar que a língua falada pode apresentar diferenças de expressão em relação à língua escrita propagada no ambiente escolar, entretanto, ela só plantou a sementinha do preconceito linguístico. Assim, é preciso sempre deixar muito claro o que se está ensinando e observar o que os alunos estão apreendendo sobre aquilo.

Eu não iniciaria o trabalho com esse texto, pois sempre procuro trazer piadas, charges, HQs, causos ou músicas ao iniciar o conteúdo referente às variações linguísticas. Às vezes, para introduzir o tema, o professor pode entrar na sala usando uma linguagem totalmente inadequada ao gênero AULA (usar gírias por exemplo, ou falar como carioca, ou iniciar falando como um repórter), para causar estranhamento nos alunos, dessa forma, poderá introduzir, antes do tema “variação linguística” o tema adequação linguística, pois ambos devem ser trabalhados paralelamente.

Numa sala bastante participativa, pode-se pedir para que cada grupo de alunos centre-se em um tipo de variação e traga uma música que apresente tal aspecto linguístico. Por exemplo, um grupo traz uma música muito antiga e outra mais nova, para mostrar gírias antigas e as que utilizamos atualmente. Outro grupo traz uma música que apresente uma variante regional do nordeste, enquanto um traz uma música do sul. Pode-se, inclusive, pedir que um grupo procure músicas que contenham neologismos e estrangeirismos, entre outros. Os grupos devem, além da música, apresentar o conceito norteador do trabalho.

Há vários vídeos muito bons abordando o tema no YouTube.