Páginas

Mostrando postagens com marcador gêneros textuais. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador gêneros textuais. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Tipologia e gênero textual na sala de aula

O ensino de língua portuguesa sofreu alterações preciosas nas últimas décadas, pois a forma como trabalhamos produção e leitura de textos foi modificada a partir das contribuições trazidas por Bahktin e por outros estudiosos da linguísticas (como Koch e Fiorin, no Brasil). O fato é que já não é mais possível fazer leituras dissociadas de contexto histórico e social e que é preciso trabalhar produções e leituras de textos a partir da perspectiva das tipologias e gêneros textuais.
Quando iniciei minha carreira no magistério, já gostava muito de linguística e escrevo por diversão sempre procurei trabalhar a leitura e produção de textos de forma divertida. Partindo disso, acredito que contar uma das práticas é sempre mais relevante do que defender uma ideia que já foi comprada e distribuída.
Certa vez, com turmas de 7ºano (Na E.E. Leda Guimarães Natal), entrei na sala e dividi a lousa em três partes de tamanhos mais ou menos iguais. Na primeira, escrevi a receita de brigadeiro (é importante colocar todos os elementos da receita), na segunda escrevi vários poeminhas de Quintana (escolha com e seu rimas) e deixei a terceira em branco.
Sugestão de receitaBRIGADEIRO
Ingredientes 1 lata de Leite MOÇA® Tradicional 3 colheres (sopa) de Chocolate em Pó  1 colher (sopa) de manteiga
 1 xícara (chá) de chocolate granulado
 Manteiga para untar
Modo de PreparoEm uma panela, coloque o LEITE MOÇA®, o Chocolate em Pó DOIS FRADES® e a manteiga. Misture bem e leve ao fogo baixo, mexendo sempre até desprender do fundo da panela (cerca de 10 minutos). Retire do fogo, passe para um prato untado com manteiga e deixe esfriar. Enrole em bolinhas e passe pelo chocolate granulado. Coloque em forminhas de papel.Rendimento: 40 brigadeiros
Tempo de Preparo: 30 minNível de Dificuldade: FácilCusto: $ - Baixo

Poeminhas do Mário Quintana
DAS UTOPIAS
Se as coisas são inatingíveis... ora!Não é motivo para não querê-las...Que tristes os caminhos se não foraa mágica presença das estrelas!
BILHETE
Se tu me amas,ama-me baixinho.
Não o grites de cima dos telhados,deixa em paz os passarinhos.
Deixa em paz a mim!
Se me queres,enfim,
....tem de ser bem devagarinho,....amada,
....que a vida é breve,....e o amor....mais breve ainda.
DA OBSERVAÇÃONão te irrites, por mais que te fizerem...Estuda, a frio, o coração alheio.Farás, assim, do mal que eles te querem,Teu mais amável e sutil recreio...
DA DISCRIÇÃONão te abras com teu amigoQue ele um outro amigo tem.E o amigo do teu amigoPossui amigos também...
(os dois últimos são particularmente bons, pois trazem os verbos no imperativo)



Em seguida, perguntei aos alunos o que era aquilo na lousa. Rapidamente me disseram que era uma receita, mas tiveram várias opções para as trovas (poemas, poesia, versinhos, música, rimas etc). Perguntei como sabiam e a maioria deles respondeu de forma irritada, como se fosse a coisa mais natural do mundo saber que textos eram aqueles (mesmo os que nunca tinham lido aquela receita que coloquei e os versinhos ali postos). Então retomei com eles a questão da estrutura dos dois textos (Acho interessante colocar os elementos textuais em um papel pardo, com letras grandes, para depois colar na parede). Terminado isso, falei que poderiam adiantar a conversa, porque eu colocaria um segundo texto. Então escrevi algo como:

RECEITA PARA IRRITAR PROFESSOR


Ingredientes1 professor1 aluno mal-educado39 alunos comuns10 palavrões1 lata de lixo10 folhas de papel

Modo de preparoColoque todos os alunos numa sala de aula (inclusive o mal-educado). Distribua as folhas de papel aleatoriamente e faça uma bola com uma e peça que joguem na cabeça de alguém. Faça um avião com outra folha e peça que o joguem pelo ar, não se preocupe com as outras, automaticamente se tornarão bolas ou aviões.Os alunos que receberem as boladas distribuirão os palavrões pelo ambiente. Um aluno mal educado deve chutar o lixo, derrubando toda a sujeira pela sala.Chame o professor (ou espere que ele apareça caso toque o sinal). Pode servir!É suficiente para cerca de 10 professores, 1 diretor e 2 coordenadores presentes.Cuidado para não servir quente demais, pode ser servido com convocação para os pais de sobremesa.Não misture todos os ingredientes de uma única vez, há risco de suspensão coletiva e reunião de pais com urgência.Tempo de preparo: 5 minutosNível de dificuldade: Fácil, não precisa de ajuda de adultos.


É claro que os alunos pararam de conversar enquanto eu escrevia a receita na lousa (para cada sala eu trabalhava uma receita final diferente), eu os ouvia rindo, brincando, sugerindo nossos passos. Foi muito divertido.
Em seguida, perguntei que texto era aquele. Então começou uma briga, uns diziam que era receita, outros que eram instruções, alguns, manual etc. Então eu expliquei para eles que todos estavam certos, que eu havia misturado os diferentes gêneros que eles conheciam em um único texto e que agora era a vez deles de criar. Ao que sugeri alguns temas, como receitas de amor, raiva, inveja, jogo de futebol, paixão, namorado perfeito etc., que deveriam ser escritos baseados na estrutura da receita (com ingredientes e modo de preparo, verbos no imperativo, por exemplo), mas com temas que não podiam ser feitos no forno e fogão.
Ainda tenho alguns textos dos alunos. Ficaram maravilhosos e eles adoraram, fizeram, inclusive uma exposição no corredor com os melhores textos.
É isso!

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Roteiro de abordagem para Chapeuzinho Amarelo - do Chico Buarque

1 Série a que se destina:
1º Ano – Ciclo II – Ensino Fundamental 2 Objetivos: Desenvolver as competências leitoras e escritoras de textos poéticos dentro da tipologia narrativa. Relacionar imagens e texto Perceber as características dos textos poéticos Relacionar título ao texto Perceber rimas e ritmo textuais Identificar o tema do texto 3 Conceitos explorados:
Linguagem poética (verso, estrofe, ritmo e rima) texto narrativo (situação inicial, conflito, clímax e situação final), elementos da narrativa (foco narrativo e personagens)
4 Reprodução do texto utilizado:
Chapeuzinho Amarelo – Chico Buarque
Era a Chapeuzinho Amarelo.
Amarelada de medo.
Tinha medo de tudo, aquela Chapeuzinho.
Já não ria.
Em festa, não aparecia.
Não subia escada, nem descia.
Não estava resfriada, mas tossia.
Ouvia conto de fada, e estremecia.
Não brincava mais de nada, nem de amarelinha.
Tinha medo de trovão.
Minhoca, pra ela, era cobra.
E nunca apanhava sol, porque tinha medo da sombra.
Não ia pra fora pra não se sujar.
Não tomava sopa pra não ensopar.
Não tomava banho pra não descolar.
Não falava nada pra não engasgar.
Não ficava em pé com medo de cair.
Então vivia parada, deitada, mas sem dormir, com medo de pesadelo.
Era a Chapeuzinho Amarelo…
E de todos os medos que tinha
O medo mais que medonho era o medo do tal do LOBO.
Um LOBO que nunca se via,
que morava lá pra longe,
do outro lado da montanha,
num buraco da Alemanha,
cheio de teia de aranha,
numa terra tão estranha,
que vai ver que o tal do LOBO
nem existia.
Mesmo assim a Chapeuzinho
tinha cada vez mais medo do medo do medo
do medo de um dia encontrar um LOBO.
Um LOBO que não existia.
E Chapeuzinho amarelo,
de tanto pensar no LOBO,
de tanto sonhar com o LOBO,
de tanto esperar o LOBO,
um dia topou com ele
que era assim:
carão de LOBO,
olhão de LOBO,
jeitão de LOBO,
e principalmente um bocão
tão grande que era capaz de comer duas avós,
um caçador, rei, princesa, sete panelas de arroz…
e um chapéu de sobremesa.
Mas o engraçado é que,
assim que encontrou o LOBO,
a Chapeuzinho Amarelo
foi perdendo aquele medo:
o medo do medo do medo do medo que tinha do LOBO.
Foi ficando só com um pouco de medo daquele lobo.
Depois acabou o medo e ela ficou só com o lobo.
O lobo ficou chateado de ver aquela menina
olhando pra cara dele,
só que sem o medo dele.
Ficou mesmo envergonhado, triste, murcho e branco-azedo,
porque um lobo, tirado o medo, é um arremedo de lobo.
É feito um lobo sem pelo.
Um lobo pelado.
O lobo ficou chateado.
Ele gritou: sou um LOBO!
Mas a Chapeuzinho, nada.
E ele gritou: EU SOU UM LOBO!!!
E a Chapeuzinho deu risada.
E ele berrou: EU SOU UM LOBO!!!!!!!!!!
Chapeuzinho, já meio enjoada,
com vontade de brincar de outra coisa.
Ele então gritou bem forte aquele seu nome de LOBO
umas vinte e cinco vezes,
que era pro medo ir voltando e a menininha saber
com quem não estava falando:
LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO
Aí, Chapeuzinho encheu e disse:
"Pára assim! Agora! Já! Do jeito que você tá!"
E o lobo parado assim, do jeito que o lobo estava, já não era mais um LO-BO.
Era um BO-LO.
Um bolo de lobo fofo, tremendo que nem pudim, com medo de Chapeuzim.
Com medo de ser comido, com vela e tudo, inteirim.
Chapeuzinho não comeu aquele bolo de lobo,
porque sempre preferiu de chocolate.
Aliás, ela agora come de tudo, menos sola de sapato.
Não tem mais medo de chuva, nem foge de carrapato.
Cai, levanta, se machuca, vai à praia, entra no mato,
Trepa em árvore, rouba fruta, depois joga amarelinha,
com o primo da vizinha, com a filha do jornaleiro,
com a sobrinha da madrinha
e o neto do sapateiro.
Mesmo quando está sozinha, inventa uma brincadeira.
E transforma em companheiro cada medo que ela tinha:
O raio virou orrái;
barata é tabará;
a bruxa virou xabru;
e o diabo é bodiá.
FIM
(Ah, outros companheiros da Chapeuzinho Amarelo:
o Gãodra, a Jacoru,
o Barãotu, o Pão Bichôpa…
e todos os tronsmons).
5 Descrição da proposta: Esta proposta visa trabalhar a narratividade presente nos textos poéticos, estabelecendo uma relação intertextual entre os textos “Chapeuzinho Vermelho” e “Chapeuzinho Amarelo”. 6 Explicação das estratégias a serem utilizadas para o desenvolvimento da proposta: a. Reconstrução da História da Chapeuzinho Vermelho oralmente com os alunos. b. Distribuição de cópia do poema (ou reprodução dele no datashow) para que os alunos possam acompanhar a leitura c. Leitura do poema em voz alta, com intervenção do professor com perguntas como: “Por que será que este chapéu é amarelo e não vermelho?”, “Em que pensamos quando vemos a cor amarela?”... etc (nesse momento é bom que o professor esteja com o livro mesmo, sei da dificuldade que é ter o livro, mas ele custa cerca de R$25,00 e é uma obra prima da literatura infantil) d. Exploração dos medos das crianças “porque ela tinha tanto medo e do que?”... “porque o lobo fica chateado?” e. Reprodução (quando possível) das imagens que compõem o livro, ou mostragem do livro. f. Reconstrução da narrativa, com os alunos. Buscando responder: Quem? Onde? Quando? Como? Por quê? g. Destacar para os alunos a estrutura poética do poema, relembrando os conceitos de verso, estrofe e rima. h. Trabalhar algumas rimas do poema com os alunos. Observação
Sempre que trabalho este texto com meus alunos faço uma atividade de análise do texto e peço para que eles listem pelo menos 30 coisas de que já tiveram ou de que tem medo, dizendo quais os motivos dos seus medos. Em seguida, fazemos uma espécie de roda do medo em que vamos jogando os medos na roda e discutindo o porquê deles existirem e se há algo que justifique permanecer com medo deles. Por exemplo, eles concordam que não precisam ter medo de escuro, mas muitos acham que precisam ter medo da diretora da escola. Por fim, faço uma relação entre a Chapeuzinho Vermelho e o medo e a Chapeuzinho Amarelo.