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domingo, 10 de agosto de 2014

Meu pai

Um dia me disseram que nunca ganharia na loteria, pois não se ganha duas vezes eu já havia ganhado quando nasci filha dos meus pais.

Meus pais são uma dicotomia linda, como uma moeda, não consigo imaginá-los um sem o outro. Felizmente é assim.

Meu pai é um homem. Um exemplo de homem, íntegro, bom, honesto, justo, feliz, vencedor. Um homem grato.

Meu pai é um alcoólatra em recuperação desde que eu era uma menina. Deixou o álcool, e eu acho lindo quando ele cheira nossa bebida porque ainda aprecia o aroma, acho doce quando prova um pouco da bebida só para ter certeza de que aquilo já não lhe agrada mesmo, e o admiro por ter vencido o vício e se tornado um exemplo para nós.

Meu pai é um trabalhador, a vida não lhe deu nenhum dinheiro de mão beijada, e sua aposentadoria precoce não é um prêmio, como alguns podem pensar, nós que estávamos perto, o vimos mancar dia após dia sem reclamar, porque isso não diminui a dor mesmo. Eu o vi trabalhando, apesar da dor, durante anos na serralheria (a outra metade da moeda chegando do trabalho e indo ajudar), e nossa casa é a prova de que valeu a pena cada fagulha dentro do olho.
  
 Meu pai é um homem grato, integro e honesto, nunca o vi tirar absolutamente nada de ninguém. Ao contrário, tira de si para dar aos outros. Não teve seu primeiro carro facilmente, pois ajudou pagar primeiro o do irmão, sua primeira casa era um cômodo, pois sua mãe lhe disse que deveria ter uma casa quando se casasse, teve que escolher, pois, a menor. Isso não foi nunca motivo de lamúria em casa. Meu pai é grato.

Meu pai foi o homem que disse "Parabéns filha, só não para a faculdade"; e "Eu apoio o filho de todo mundo vou deixar a minha filha sem apoio?"; e ainda "Se eu tivesse outra filha, queria que fosse como essa". Tudo isso quando eu estava grávida, solteira (por opção mesmo) e insegura.

Meu pai é pai. Não apenas meu, mas de quem precisar dele, a prova disso é que tem muitos filhos não consanguíneos por aí. Roberto, Nena, Miltinho são provas disso. Quantos amigos meus queriam um pai que fosse metade do meu, um terço!

Meu pai é um homem grato e temente a Deus. Ele nos ensinou a crer, a orar a agradecer e a compreender que somos parte de uma grande obra, com uma missão particular. Sempre esteve lá para me ajudar a cumprir minha missão como professora, executando meus projetos malucos... me ajudando a montar minhas ideias da melhor forma.

Meu pai é mais do que um herói, é um homem que me ensinou a ser grata às pequenas coisas da vida, que achou lindo eu ser quem eu era, por mais estranha que eu fosse, é um homem que ri, que chora, que grita, que fica de cara fechada e nunca soube brigar comigo (deixava sempre essa tarefa pra minha mãe). Mas é um dos homens da minha vida!


Meu pai já é avô, e isso fez dele um homem mais feliz. Segurar a cabeça do Augusto que parecia uma laranja naquelas mãos enormes ainda ásperas era tão lindo! E como eu poderia impedi-lo de dar goiabada pro neto só porque ele tinha 2 meses e era prematuro? Meu pai foi pai do Gu quando eu fiz estágio, cuidava dele praticamente a tarde toda para eu poder me formar e entre eles há um elo que ninguém explica. Nunca vi meu pai chorar tão dolorosamente como quando vim pra Macaé. Nem mimar alguém como faz com o Augusto. Tudo é pouco para esse neto. e quem sou eu para dizer não faça! Eles são um do outro.


Pai, você é um exemplo de homem, o melhor exemplo que eu poderia ter. Dizer que eu te amo é pouco, deveria inventar outro sentimento, não apenas te amo, gostaria que o mundo fosse cheio de gente como você.


Te amo

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Roteiro de trabalho – Fábula Eleitoral para Crianças




1 Série a que se destina:
3º Ano - EM e/ou 9º ano EF


2 Objetivos:
Desenvolver as competências leitoras e escritoras de textos literários dentro da tipologia narrativa, com presença de argumentação e figuras de linguagem.
Explorar os gêneros fábula e crônica (inter-relacionar os gêneros)
Explorar o texto e a percepção dos conectivos e suas funções
Identificar o tema do texto
Desenvolver leitura crítica e analítica

3 Conceitos explorados:
Elementos da fábula 
Elementos da crônica 
Argumentação 
Conectivos.

4 Reprodução do texto utilizado:

Fábula eleitoral para crianças
Paulo Mendes Campos

Um dia, as coisas da natureza quiseram eleger o rei ou a rainha do universo. Os três reinos entraram logo a confabular. Animais, vegetais e minerais começaram a viver uma vida agitada de surtos eloquentes, manobras, recados furtivos, mensagens cifradas, promessas mirabolantes, ardis, intrigas, palpites, conversinhas ao pé do ouvido.

Entre os bichos era um tumulto formidável. Bandos de periquitos saíam em caravana eleitoral, matilhas de cães discursavam dentro da noite, cáfilas de camelos percorriam os desertos, formigas realizavam comícios fantásticos, a rainha das abelhas passava com o seu séquito, sem falar nos cardumes de peixes, nos lobos em alcatéias pelos montes, nas manadas de búfalos pelas savanas, nas revoadas instantâneas dos pombos-correios.

Todas as qualidades eram postas à prova: a astúcia da raposa, a agilidade dos felinos, o engenho dos cupins, o siso da coruja, o poder de intriga das serpentes, a picardia do zorro, a doçura da pomba, a teimosia do burro, o cosmopolitismo dos ratos.

O leão, o tigre, a pantera, o leopardo e outros queriam derramar muito sangue; pássaros coloridos faziam frente única para indicar um pássaro colorido; já os pássaros que cantam decidiram apontar como candidatos o rouxinol, a cotovia, a patativa; as cegonhas, irresolutas, passavam tardes pensando; os patos s­elvagens desfilavam no céu; as andorinhas, tímidas, buscavam o refúgio das igrejas; e a águia, fascista de nascença, pretendia organizar lá no alto uma conferência de que só participassem as aves de rapina, como o falcão, o condor e o gavião-de-penacho.

Os papagaios viviam a arengar bobagens pelas árvores; a raposa corria as várzeas articulando uma candidatura, ninguém sabia qual; os macacos eram vaiados quando alegavam a semelhança com o homem; o cavalo se insinuou candidato, dado a sua condição de antigo senador. O pavão, escondendo os pés, exibia a cauda; nos brejos, os sapos repetiam slogans monótonos; os jacarés e as tartarugas ressonavam na beira dos rios, que passavam levando sussurros quase imperceptíveis, a conversar as pedras e as ervas das margens; o rato do campo ia de vez em quando se aconselhar com o rato da cidade; os gansos citavam velhos costumes romanos; certos bichos, como o boi e a íbis, invocavam direitos divinos, que não eram muito levados a sério; as hienas e os chacais opinavam por um conselho de notáveis, a ser constituído pelos animais ferozes, que lhe deixavam os restos; até a ameba, coitada, queria ser candidata, dizendo-se a origem da vida.

A mosca azul voava e revoava por todos os cantos. Quem será o rei ou a rainha do universo? De dia, as borboletas andavam como doidas pelos campos, à noite, os vaga-lumes acendiam as suas luzes.

Nas profundezas da terra, o carbono fazia estranhas combinações com o hidrogênio. O diamante e o ouro reluziam de esperança. As estrelas pretendiam uma coalizão de todo o espaço constelado em torno de Vênus, causando ciúmes à Lua.

As flores distribuíam perfumes. Árvores agitadas recebiam recados que os ventos traziam de longe. A floresta pensava eleger não um rei, mas um colegiado de carvalhos, velhos, cheios de experiência. E por toda a flora era um germinar, um brotar, um verdejar, um florescer, os monocotiledôneos discordavam dos dicotiledôneos, os fanerógamos acusavam de hipocrisia os criptógamos. A plena campanha eleitoral com todos os incidentes. Só os ciprestes continuavam fechados em sua indiferença.

A despeito dos interesses em choque, e de tantas contradições, é preciso dizer, a bem da verdade, que o pleito transcorreu com a máxima lisura.

Ao fim de tudo, a escolha não podia ter sido mais feliz, pois os três reinos unidos elegeram a rosa rainha suprema do universo.

Sim, a rosa, a rosa na sua simplicidade tocada de esplendor, presa na sua haste entre o céu e a terra, eterna e efêmera, a rosa, carne, espírito e pó. E para entronizar a rainha, o dia se iluminou com a sua luz mais clara, o mar se fez manso, os pássaros cantaram com inspiração, as árvores se puseram mais verdes e mais altas, as flores vestiram roupagens de gala, os seixos rolaram alegremente nas praias, os juncos das lagoas se inclinaram em reverência, as nuvens se desfraldaram como cortinas de gaze sobre o berilo. No fundo do mar era uma alegria silenciosa e solene como um Te-Deum em uma catedral verde-escuro, os polvos gesticulando em câmara lenta, os peixes e as medusas passando sem barulho.

Entre os seres humanos, só as crianças sabiam que era o dia da entronização da rosa, e nada contaram a ninguém. Mas pelo jardim onde se achava a rosa, expectante no seu recato soberano, passava naquela manhã um homem feio e preocupado. Era um candidato a qualquer coisa, a vereador, a deputado, a Presidente da República, não se sabe ao certo. Distraído com as suas ambições, ele colheu a rainha do universo, que entrou logo a fenecer em suas mãos úmidas. Depois, olhou e viu que se tratava de uma bela rosa, uma rosa digna de se oferecer a uma namorada. Mas ele não tinha namorada. Mal-me-quer, bem-me-quer, mal-me-quer... Ele começou a desfolhar a rosa só para saber se dessa vez seria eleito: à Câmara de vereadores, de deputados ou à curul da Presidência da República, não se sabe ao certo. E a rosa morreu. E foi por isso que o dia se fechou de repente, o céu ficou escuro, os animais uivaram nos bosques, os pássaros sumiram, o vento se desatou sobre o mar agora encapelado, o raio e o trovão tomaram conta da noite sem estrelas, e as crianças na hora do jantar perderam a fome. Tinha morrido a rainha do universo.

Mas nas trevas desabrochou outra rosa para iluminar com a sua beleza o jardim amanhecido.

5 Descrição da proposta:

Visa trabalhar a argumentação presente no texto intitulado Fábula eleitoral para crianças, estabelecendo uma relação intertextual entre os discursos eleitorais e a política atual e a apresentada na obra, por meio da análise do uso de conectivos.

6 Explicação das estratégias a serem utilizadas para o desenvolvimento da proposta:

a. Construção coletiva do conceito de Política, por meio da técnica Brainstorming (tempestade cerebral) que consiste em apresentar uma palavra ou tema aos alunos (na lousa e de forma central) e pedir que verbalizem imediatamente, sem certo e errado, sem julgamentos qualquer associação que lhe vier à mente, o professor deve, nesse processo ir anotando palavras chaves ou ideias chaves que surgiram, incentivando ainda mais manifestações e também anotando-as. O processo não deve durar mais do que três minutos. Seguido a isso, passa-se a construir o conceito, junto com os alunos, num canto da lousa. Mesmo que surjam ideias que não tenham nada a ver com o tema o professor deve anotá-las para que ao final seja feita a seleção, pelos próprios alunos, daquilo que é adequado, ou não.
Sugestão de palavras e temas para iniciar o Brainstorming: eleição; política, presidente; "como se escolhe um presidente?" - "Rei X Presidente" - "Governar para quem?"


b. Distribuição de cópia do texto

c. Discussão do título do texto. Os alunos poderão estranhar, na idade deles, ler um texto intitulado para crianças. Relembrar também o conceito e os elementos da fábula.

d. Explicar aos alunos que não devem se preocupar com os termos desconhecidos, pois eles não interferirão na compreensão final e poderão tirar as dúvidas no final da leitura.

e. Leitura do texto silenciosa seguida de leitura em voz alta, com intervenção do professor nos momentos em que julgar adequado.

f. Após a leitura o professor deve pedir que os alunos expressem suas impressões sobre o texto, especialmente sobre o final.

g. Retomar o título do texto e discuti-lo, questionando se realmente o texto foi escrito para crianças, o porquê, o que ele pode ensinar, etc. Explorar a noção de que apesar de intitulado fábula, trata-se de uma crônica, explorar os elementos da crônica (nas séries apontadas eles já trabalharam com esse gênero). Fazer a relação entre os gêneros e explicar porque o  autor (provavelmente) optou por intitula-lo como fábula.

h. Orientar os alunos a retirar (ou grifar) todas as palavras que façam referência à política.

i. Trabalhar com os alunos os conectivos, baseados no texto abaixo (do curso da Cogeae: Da leitura para Redação):

Gramática e Coesão Textual

O estabelecimento da coesão está ligado ao conhecimento do funcionamento da língua, ou seja, da gramática. Costuma-se associar a coesão ao emprego dos pronomes e à concordância. Entretanto, há muitos outros elementos da língua responsáveis pela coesão em um texto. Algumas palavras atuam especificamente na junção dos elementos do discurso, promovendo o que chamamos de coesão sequencial por junção. Essas palavras ocorrem num determinado ponto do texto indicando o modo pelo qual se conectam as porções que se sucedem.
Apresentamos algumas palavras que estabelecem a ligação, isto é, a junção entre as orações e que tipo de relação que elas estabelecem.

Relação de adição; CONJUNÇÃO
Exemplos:
Chove e faz frio.
Não me arrisco nem arrisco você.
Aí ninguém entra. Nem eu.
Ela é afetada, esnobe. E como representa, parece que está sempre no palco.

Relação de contraste, de desigualdade; CONTRAJUNÇÃO
Exemplos:
Fez o que quis mas levou na cabeça.
Jogou muito bem, contudo não conseguiu o título.
Foi à festa embora estivesse doente.
Depenava frangos e não ganhava nada.
Vou bem mas você vai mal.

Relação de alternância; DISJUNÇÃO
Exemplos:
Ou se usa luva ou se usa anel.
Estude bastante para os exames. Ou você já se esqueceu o que aconteceu no ano passado?

Relação de causa-consequência; CAUSALIDADE
Exemplos:
Não estudou e reprovado.
Ele gritou tanto durante o jogo que ficou rouco.
Falou baixo porque havia uma criança dormindo.
Trabalho aqui porque quero.
Se Paulo é homem então é mortal.

Relação de condição; CONDICIONALIDADE
Exemplos:
Caso a senhora não prestar contas, levaremos o problema ao diretor.
A menos que você seja um conselheiro treinado, deixe a tarefa para um profissional.
Se o trabalho não seguir conforme a instrução, delegue-o a outra pessoa.

Relação de finalidade; MEDIAÇÃO
Exemplos:
Fugiu para que não o vissem.
Saiu cedo para chegar a tempo na reunião.
Secou os cabelos a fim de evitar outro resfriado.

Relação de delimitação; RESTRIÇÃO
Exemplos:
Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão.
Comprei os livros que você pediu.

j. Pedir que os alunos localizem no texto, em grupos de quatro alunos, exemplos de elementos coesivos.

k. Pedir que os alunos anotem no papel craft os conectivos encontrados e o número do parágrafo em que apareceram.

l. Colar os papéis craft na lousa, ou na parede e mostrar aos alunos as possíveis diferenças entre um e outro, apontando correções quando necessário. Pode-se criar com a sala uma legenda (com letras ou cores) para cada tipo de relação de coesão e pedir que os alunos a marquem no próprio texto.

m. O professor pode ainda explorar o uso da metáfora neste texto e a presença de substantivos coletivos.

n. O professor pode trabalhar a noção de referente, mas atentando para o fato de que o texto é bastante extenso e no decorrer dele apresenta vários termos que são retomados. Pode-se fazer uso disso para que os alunos localizem as palavras que fazem referência umas às outras, evitando a repetição desnecessária.

o. O uso da pontuação no texto também é interessante, pois a maioria dos alunos não usa adequadamente o ponto e vírgula.

p.Segundo sugestão da professora Silvia Albert, o professor pode ainda trabalhar as características dos animais apresentados na crônica e relacioná-las às figuras do cenário político atual, trabalhando, assim, a crítica e a ironia presentes no texto.

q. Pode-se ainda, segundo ela, trabalhar esses elementos na materialidade do texto, o que significaria um passo a mais no desenvolvimento dos processos de leitura e compreensão dos alunos. Nesse sentido, devemos trabalhar não só os conectivos, mas os operadores argumentativos presentes no texto.

Bibliografia
ANDRADE, C. D.; SABINO, F; CAMPOS, P.M.; BRAGA, R. Para gostar de ler – Volume 5 – Crônicas. São Paulo:Ática, 1980.
MASSETO, Marcos Tarciso. Competência Pedagógica do professor universitário . São Paulo: Simmus, 2003.

terça-feira, 27 de julho de 2010

A periferia e os hábitos de consumo

"Celular é que nem cu, todo mundo tem" – Frase ouvida dentro do ônibus
"Ao contrário do mundo caótico apresentado pelos noticiários dos jornais, a mensagem publicitária cria e exibe um mundo perfeito e ideal, a verdadeira ilha de Calipso, que acolheu Ulisses em sua Odisséia – sem guerras, fome, deterioração, ou subdesenvolvimento. Tudo são luzes, calor e encanto, numa beleza perfeita e não perecível" – Nelly de Carvalho, Publicidade – A linguagem da sedução.

Alguns dos meus vizinhos moram em barracos que inundam ou pingam a cada chuva, que, aliás, são bem frequentes na região de Parelheiros. Outros moram à beira de córregos, que alagam quando chove e fedem nos dias de sol. Eu tenho muitos vizinhos, de moradores de “cortiços” e pensões a casas grandes e bem construídas, mantidas nas regiões mais altas e por pessoas mais abastadas. Mas eles todos, absolutamente todos, tem algo em comum: são consumidores.

De acordo com o Aurélio online, consumidor é toda “pessoa que compra para uso próprio gêneros ou mercadorias”. É preciso ressaltar, entretanto, que há pessoas que não compram, mas influenciam na decisão de compra de seus familiares, é o caso das crianças e algumas esposas ou maridos, que embora não tenham pode aquisitivo, decidem junto com o pagante o que será comprado.

Embora não aceitemos com facilidade a ideia de que certas coisas só fazem parte de certos grupos sociais isso é um fato, antes de se abrir uma loja faz-se uma pesquisa de mercado para saber se aqueles que podem pagar por determinados bens os querem. Mas porque então, um tênis que custa 600 reais, produzido com tecnologia para jogar Tenis e outros esportes de alto impacto (na maioria das vezes praticados pelas classes A e B) são tão vistos em pés subindo morros e descendo vielas?

A periferia é marginalizada, e não está somente às margens do centro de São Paulo – devemos lembrar que vida social, cultural e profissional se concentra especialmente na Paulista e na região de Berrini -, a periferia está às margens do consumo.

O processo de descentralização (que traz a população de baixa renda cada vez mais para a periferia) é um dos grandes responsáveis pela busca de produtos que “insiram” as pessoas no mundo que só conhece quem tem dinheiro.

Ora, quem nunca viu uma doméstica ou auxiliar de limpeza com um celular compatível com ou mais tecnológico do patrão? Quem nunca viu um pedreiro, cobrador de ônibus ou motoboy sacar um celular com Touch Screen?

Não estou dizendo que essas pessoas não devem ou que não podem ter acesso à alta tecnologia, mas o que vejo são pessoas que se alimentam mal, não cuidam da saúde física e mental, tem uma péssima vida cultural (sem acesso ao teatro, cinema, shows), pessoas que não exercem sua devida cidadania, porque sequer votam ou frequentam escolas, mas pessoas que tem celulares pré-pagos top de linha, calças de marca e chapinha no cabelo.

Essas pessoas vêem nos objetos de consumo a única forma de se inserirem num mundo delineado como perfeito pela publicidade, mas que não pertence a elas e quiçá a ninguém.