segunda-feira, 22 de março de 2010
domingo, 21 de março de 2010
segunda-feira, 1 de março de 2010
Mente em preto e branco

Se olhas para o outro
vendo a cutis desbotada
atribuindo valores bons
à alma cheia de escritos vãos
Se olhas a pele escura
procurando nela o defeito
atribui moral medíocre
sem consciência, sem razão
Se olhas o olho puxado
esperando a inteligência
sem ver que almas às vezes tolas
tem na carne aspecto são
Se ouves o sotaque puxado
do nordestino ou descendente
e já o julgas desviado
da virtude, trabalho bom
Se reparas a roupa de linho
sem notar a alma suja
se se lambuzas do bom vinho
ignorando a proveniência do pão
Se notas o falar estrangeiro
como se fosse marca de luxo
e ama sem saber quem era antes
de adentrar esse país filão
Se rejeita a roupa já usada
e as manchas na pele do índio
sem lembrar que lhes tomamos a terra
os deixamos sem fonte de alimentação
Se devoras a carne alheia
por ver a pele macia e lisa
e as pernas sempre torneadas
sem desejo de verdadeira união
Se olha a saia e o cabelo cumpridos
e deseja morte aos crentes
se julga todo pastor indecente
porque ele só toma do tolo a fração
Se és tolo de ver a imagem
e por ela julgar a existência
tens uma mente em preto e branco
dela só restará a podridão
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Carnaval
E não é que tudo se inverte
Nesse maldito carnaval
Fico aqui ouvindo Ivete
Que voa borboleta, coisa e tal
Mas se digo “não me diverte”
Eu que sou sobrenatural.
Se a minha vizinha pobretona
Sai na Rosas de Ouro de rainha
Eu não ouso dizer “cafona”
Minha fala é que desalinha
Pois eu vejo pela telona
Que a cultura não definha
Enquanto uma na fome padece
Mas na avenida rebola a noite inteira
Outra vestida de seixos aparece
Da escola é padroeira
E ao ourives é que agradece
Pela coroa passageira
Mas se a escola não é campeã
Eis que a fúria se mostra ao mundo
Voa cadeira em febre terçã
Vê-se o ódio no rosto imundo
Já não importa quem provou a maçã
A festa acaba em luto profundo
E no fim, quarta à tarde é rotina
E a ressaca é a inimiga
O padre volta a vestir a batina
Na barriga, se alimenta a lombriga
E a vida que parecia tão intensa
A mudar de ritmo nos obriga.
domingo, 21 de fevereiro de 2010
Não tema as palavras
É preciso não temer as palavras
Ouvir o grito do nosso ego
Deixar-se ser cego, surdo, mudo, burro
Porque nisso reside o ser
Deixar-se ser pedra, ar, água
Para que a poesia surja limpa
Higiênica, inocente, santa
Ou mesmo suja, maculada e vil
Ser começo, meio e fim
Mergulhar em dicionários ou livros
Navegar em músicas ou poesias
Voar entre morfemas, fonemas e sílabas
Viajar entre os séculos e os países
Desenterrando vocábulos
Dando passaporte a expressões estrangeiras
Abrigando em nossos textos as rejeitadas
A poesia me acordou essa noite me dizendo
Que é preciso não temer as palavras
Não tema as palavras...
... Não tema as palavras...!
Mas eu temo
Eu temo que na ânsia de fazê-las viver
Nós a matemos
