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terça-feira, 24 de agosto de 2010

Lápide

A mãe era bipolar e parou de tomar remédios quando engravidou, para compensar voltou a fumar, achava que era melhor nicotina do que Rivotril“ ou Lexotan“.

Aos cinco anos de idade ele já era mestre em conversar com os amiguinhos, sempre conciliador, era posto pela professora ao lado dos mais chatos, porque era capaz de segurá-los contra a parede para que não saíssem de lá.

Na adolescência viveu todas as modas possíveis, cabelo cumprido, cabelo espetado, moicano... colorido, preto e branco, listas e xadrez. Sentava-se a cada dia em um lugar diferente, não tinha turma, era de todas as tribos. Sua casa era o lugar onde menos gostava de estar nessa época. Até que um dia alguém lhe disse:

- Cara, você devia ser psicólogo, gosta tanto de conversar...

Era nítido que a pessoa estava certa. Fez faculdade, bebeu, fumou, cheirou, se formou, enfim, sem muitos méritos, mas no estágio descobriu que gostava mesmo de clinicar.

Especializou-se em cases suicidas. Convenceu diversas pessoas a não se matarem porque sua vida devia valer a pena.

Um dia, no entanto, percebeu que não era feliz. Fez terapia (novamente, porque na graduação ele já fazia), viajou e na volta, quando chegou à sua casa percebeu que sua vida não fazia o menor sentido. Engoliu todos os comprimidos de sua mãe.

Em seu túmulo, alguém escreveu à giz: “diga-me com quem andas e eu lhe direi quem és”.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Chapelinha

Chapelinha ziguezagueava pelo petizal e foi chamada pela Chamãe.

- Chapelinha, sua chavó está chinfrada, leve chereu e cherubim pra ela.

- Mas chamãe, há um Bolacho na risflota, que eu faço se me espinhar?

- Não seja grunda meninacha, mas não chere com qualquer inho e segue pelo chumbico do chorinho.

- Astaut, vouver já já.

Seguia Chapelinha, pelo chumbico do chorinho quando chamaram seu donimado:

- Chapelinha? Como está?

- Chamãe me disse pra não cherar com qualquer inho...

- Pera que não sou inho. Sei até que é a meninacha mais bibucha e caspitaz da decida...

- Fico carbecida...

- E onde vai esta nachinha?

- Vou à casa da minha chavó chinfrada, no pernato da marciteira, no miastro de duas vredres, um chacalé bem chegantinho...

- Leve crisflorosas pra sua chavó, que de chinfrada fica barquicha...

- Sim, sim, que boa gestade!

E a meninacha toda bermota, pelhou crisflorosas até se mesmorar.

O Bolacho rumotou para o chacalé da chavó. Chegando mirtou a charpe e gramalhou:

- Chavó, deschave a charpe que sou eu Chapelinha!

- O tranque está arpado, erribe-no que pode entrar.

Bolacho devorou Chavó numa lachada apenas. Xirou-se na cama e mexirado de chavó mesmorou que Chapelinha já devia estar chelhando.

A meninacha sustranhou a charpe escranchada, mas narigou pra seguido gramalhar:

- Chavó, sou eu a Chapelinha...

- Venha cá minha bibucha... – disse Bolacho mexirado de chavó.

Mas Chapelinha sustranhou daquela epitação e xavou:

- Chavó... que bralmas grulhas você tem.

- São pra te bralmar melhor...

- Chavó... que vilhadas grulhas você tem.

- São pra te vilhar melhor...

- Chavó... que burganiz grulhas você tem.

- São pra te burgar melhor...

- Chavó... que gramões grulhas você tem.

- São pra te gramar melhor...

- Chavó... que borcuva grulhas você tem.

E o Bolacho lachou a Chapelinha.

terça-feira, 27 de julho de 2010

A periferia e os hábitos de consumo

"Celular é que nem cu, todo mundo tem" – Frase ouvida dentro do ônibus
"Ao contrário do mundo caótico apresentado pelos noticiários dos jornais, a mensagem publicitária cria e exibe um mundo perfeito e ideal, a verdadeira ilha de Calipso, que acolheu Ulisses em sua Odisséia – sem guerras, fome, deterioração, ou subdesenvolvimento. Tudo são luzes, calor e encanto, numa beleza perfeita e não perecível" – Nelly de Carvalho, Publicidade – A linguagem da sedução.

Alguns dos meus vizinhos moram em barracos que inundam ou pingam a cada chuva, que, aliás, são bem frequentes na região de Parelheiros. Outros moram à beira de córregos, que alagam quando chove e fedem nos dias de sol. Eu tenho muitos vizinhos, de moradores de “cortiços” e pensões a casas grandes e bem construídas, mantidas nas regiões mais altas e por pessoas mais abastadas. Mas eles todos, absolutamente todos, tem algo em comum: são consumidores.

De acordo com o Aurélio online, consumidor é toda “pessoa que compra para uso próprio gêneros ou mercadorias”. É preciso ressaltar, entretanto, que há pessoas que não compram, mas influenciam na decisão de compra de seus familiares, é o caso das crianças e algumas esposas ou maridos, que embora não tenham pode aquisitivo, decidem junto com o pagante o que será comprado.

Embora não aceitemos com facilidade a ideia de que certas coisas só fazem parte de certos grupos sociais isso é um fato, antes de se abrir uma loja faz-se uma pesquisa de mercado para saber se aqueles que podem pagar por determinados bens os querem. Mas porque então, um tênis que custa 600 reais, produzido com tecnologia para jogar Tenis e outros esportes de alto impacto (na maioria das vezes praticados pelas classes A e B) são tão vistos em pés subindo morros e descendo vielas?

A periferia é marginalizada, e não está somente às margens do centro de São Paulo – devemos lembrar que vida social, cultural e profissional se concentra especialmente na Paulista e na região de Berrini -, a periferia está às margens do consumo.

O processo de descentralização (que traz a população de baixa renda cada vez mais para a periferia) é um dos grandes responsáveis pela busca de produtos que “insiram” as pessoas no mundo que só conhece quem tem dinheiro.

Ora, quem nunca viu uma doméstica ou auxiliar de limpeza com um celular compatível com ou mais tecnológico do patrão? Quem nunca viu um pedreiro, cobrador de ônibus ou motoboy sacar um celular com Touch Screen?

Não estou dizendo que essas pessoas não devem ou que não podem ter acesso à alta tecnologia, mas o que vejo são pessoas que se alimentam mal, não cuidam da saúde física e mental, tem uma péssima vida cultural (sem acesso ao teatro, cinema, shows), pessoas que não exercem sua devida cidadania, porque sequer votam ou frequentam escolas, mas pessoas que tem celulares pré-pagos top de linha, calças de marca e chapinha no cabelo.

Essas pessoas vêem nos objetos de consumo a única forma de se inserirem num mundo delineado como perfeito pela publicidade, mas que não pertence a elas e quiçá a ninguém.

domingo, 4 de julho de 2010

Homem... não entendo, mas amo!

HOMEM... não compreendo, mas amo
Quer assim, menina:
Moleca inocente que conheceu
Sorriso pueril que enterneceu
Corpo imaculado que se ofereceu
Pupila discreta que escondeu

E não entende que amadureço
Não aceita que eu cresço
Não compreende o apreço
Da entrega madura.

Não quer a mulher
Costela indecente que se entrega
Sorriso maldito, escorrega
Fêmea sedutora, se esfrega
Olhar intimista, não sossega

Homem... não compreendo, mas amo.
Dedicatória: homens... todos eles!

terça-feira, 15 de junho de 2010

Gratidão

Ontem, na escola, conversando sobre meus pais alguém me perguntou:
- Menina, você não tem dó de fazer seu pai vir te buscar nesse frio?
- Dó? Não tenho não... Tenho gratidão!

- É, é melhor ter gratidão do que ter dó, disse alguém do outro lado da mesa...

segunda-feira, 7 de junho de 2010

A poesia


A poesia é a palavra que canta
que encanta
entre tantas
e ainda que posta no canto
da estante,
do coração,
da vida,
no canto do ouvido...

Entre tantos tantos
a poesia canta, canta
e nos encanta
tanto.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

O que você descobriu sozinho(a)?

O que você descobriu sozinho(a)?
Baseada no verso de Cecília Meireles, do poema Menina Enferma:

"Um dia, ela descobriu sozinha que era duas!
a que sofre depressa, no ritmo intenso e atroz da noite
e a que olha o sofrimento do alto do sono, do alto de tudo,
balançada num céu de estrelas invisíveis
sem contato com o chão"

proponho que cada um tente lembrar algo que descobriu sozinho... e conte pra gente... quem sabe ainda não descobrimos...